Comprar uma carteira de crédito estressado sem uma due diligence completa é como assinar um contrato sem ler as cláusulas que realmente importam. Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, observa que boa parte dos problemas que aparecem após uma cessão de crédito já estava visível antes da compra, só que escondida em detalhes que a análise superficial não capturou. A due diligence existe exatamente para trazer essas informações à superfície antes que o dinheiro troque de mãos, não depois.
O problema é que due diligence, nesse contexto, não significa apenas revisar planilhas de inadimplência. Significa responder a um conjunto específico de perguntas sobre a origem, a documentação e a recuperabilidade de cada crédito que compõe a carteira. Quando essas perguntas não são respondidas com profundidade, o comprador assume riscos que só se revelam meses depois, geralmente no momento mais inconveniente possível: durante uma tentativa de execução judicial.
Com vista nisso, as próximas seções mostram exatamente quais perguntas uma due diligence bem conduzida precisa responder, e por que ignorar qualquer uma delas custa mais do que parece à primeira vista.
O que exatamente uma due diligence em crédito estressado analisa?
Uma due diligence em carteira de crédito estressado analisa três dimensões principais, e cada uma responde a uma pergunta diferente. A primeira é a origem do crédito: quem era o credor original, em que contexto a dívida foi contraída e que tipo de garantia, se houver, foi associada a ela. A segunda é a documentação da cessão: se a carteira já passou por transferências anteriores, cada uma dessas transferências precisa estar formalizada e coerente com a anterior, formando uma cadeia de titularidade sem lacunas. A terceira é o estágio de inadimplência: quanto tempo já passou desde o não pagamento e que tentativas de cobrança já foram feitas antes da venda do crédito.
Na perspectiva de Felipe Rassi, essas três dimensões, quando analisadas em conjunto, permitem estimar não apenas o valor teórico da carteira, mas sua recuperabilidade prática. É justamente o cruzamento dessas informações que separa uma due diligence completa de uma análise que se limita a confirmar números já apresentados pelo vendedor.
Por que a documentação pesa tanto quanto o valor da dívida?
Essa pergunta costuma surpreender quem está começando a operar nesse mercado. O valor nominal de uma dívida inadimplida é apenas parte da equação. Se a documentação que comprova a transferência daquele crédito for falha, a exigibilidade da dívida pode estar comprometida, independentemente de quão alto seja o valor registrado. Uma carteira de cem milhões de reais em créditos bem documentados valem, na prática, mais do que uma carteira do mesmo valor nominal com lacunas na cadeia de titularidade, porque a primeira tem maior chance de se converter em recuperação real.
Por este prospecto, a documentação comprova o direito legal de cobrar um crédito. Sem uma cadeia de titularidade íntegra, mesmo uma dívida legítima pode ter sua exigibilidade questionada judicialmente, reduzindo o valor real da carteira independentemente do valor nominal registrado.
Por isso, due diligences bem conduzidas dedicam tempo proporcional à análise documental, não apenas à análise financeira da carteira. Ignorar essa etapa, sob a lógica de que “o valor está registrado, então o crédito existe”, é um dos erros mais recorrentes entre compradores menos experientes nesse mercado.
Quais critérios ajudam a identificar carteiras com potencial de recuperação?
Nem toda carteira de crédito estressado tem o mesmo potencial de recuperação, e parte do trabalho da due diligence é justamente separar créditos com chance real de recuperação daqueles que provavelmente nunca serão pagos. Como evidencia Felipe Rassi no campo da análise de ativos estressados, o tipo de garantia associada a cada crédito é um dos indicadores mais relevantes: créditos com garantias reais bem documentadas tendem a ter taxas de recuperação mais altas do que créditos sem qualquer garantia. O tempo de inadimplência também importa: créditos recém-inadimplidos costumam responder melhor a estratégias de cobrança do que créditos inadimplidos há muitos anos, quando a probabilidade de recuperação cai de forma significativa.

Além disso, o histórico de comportamento do devedor antes da inadimplência total oferece pistas importantes. Um devedor que fez pagamentos parciais consistentes antes de parar de pagar sinaliza um perfil diferente de um devedor que nunca honrou nenhuma parcela. Esses sinais, quando cruzados com a qualidade documental da carteira, permitem construir uma estimativa de recuperabilidade muito mais precisa do que uma simples média histórica do setor.
Como o ciclo de juros influencia essa análise?
Uma pergunta menos óbvia, mas cada vez mais relevante, é como o cenário de juros afeta a due diligence de uma carteira de crédito estressado. Em períodos de juros mais altos, o custo do crédito sobe para todos os tomadores, o que tende a aumentar o volume de novos créditos inadimplidos entrando no mercado. Isso não significa, necessariamente, que a qualidade média das carteiras disponíveis melhora ou piora, mas altera o volume e o perfil dos créditos que chegam ao mercado de NPL em determinado momento do ciclo.
Esse cenário muda quando o perfil do devedor também muda. Felipe Rassi, analista de mercado de ativos estressados, nota que, em ciclos de juros elevados, é comum que devedores com histórico de crédito mais sólido também entrem em inadimplência, o que pode significar carteiras com potencial de recuperação diferente das que circulavam em ciclos anteriores. Por isso, uma due diligence atenta ao momento macroeconômico tende a captar nuances que uma análise puramente histórica deixaria passar.
O que muda quando a due diligence é feita de forma superficial?
Quando a due diligence é conduzida de forma apressada, o comprador tende a confiar excessivamente nos números apresentados pelo vendedor, sem verificar de forma independente a documentação e o histórico de cada crédito. O resultado costuma aparecer depois da compra: créditos que pareciam recuperáveis se mostram juridicamente frágeis, garantias que pareciam sólidas revelam problemas de formalização, e o deságio pago pela carteira se mostra insuficiente para compensar os riscos que não foram identificados a tempo.
Esse é o motivo pelo qual a due diligence deveria ser tratada como o núcleo da operação de compra de crédito estressado, não como uma etapa formal a ser cumprida rapidamente antes do fechamento do negócio. Quanto mais aprofundada a análise antes da compra, menor a chance de surpresas depois dela, e é exatamente essa antecipação que separa operações bem-sucedidas de operações que geram disputas prolongadas.
No fim, uma due diligence completa não elimina todos os riscos de uma carteira de crédito estressado, e não deveria tentar prometer isso. Para Felipe Rassi, o que ela oferece é a possibilidade de comprar com os olhos abertos, sabendo exatamente que tipo de ativo está sendo adquirido e que tipo de esforço será necessário para recuperá-lo. É essa diferença, entre comprar informado e comprar apostando, que define o resultado de cada operação nesse mercado.
