O executivo com atuação em reestruturação empresarial e gestão estratégica, Valdoir Slapak, pontua que, em um turnaround, os contratos recorrentes de aluguel e de serviços merecem revisão cuidadosa, porque representam compromissos que se repetem todos os meses e pesam sobre o caixa, mesmo quando a receita cai. Revisá-los permite reduzir custos fixos sem comprometer a operação.
A revisão não se resume a pedir desconto. Ela envolve entender o que cada contrato entrega, quais são as condições de reajuste, prazo e saída, e qual é o espaço para renegociação. Ao mesmo tempo, o processo deve respeitar a relação com os fornecedores, já que a continuidade do serviço também importa para a recuperação.
Por que os contratos recorrentes pesam no turnaround?
Em uma empresa em dificuldade, a receita pode oscilar, mas boa parte dos custos fixos continua igual. Aluguéis, contratos de manutenção, serviços terceirizados, licenças e assinaturas formam uma base de despesas que se repete e que muitas vezes foi contratada em um momento diferente do atual, com volumes e preços que já não refletem a realidade da operação. Reduzir essas despesas fixas é parte da disciplina de caixa, pois devolve flexibilidade à empresa em um momento de menor margem de erro.
Para Valdoir Slapak, esse peso se agrava porque os contratos recorrentes costumam receber menos atenção do que as despesas variáveis, já que parecem estruturais. No entanto, a revisão desses compromissos é uma das alavancas mais diretas para melhorar a disciplina de caixa no início de uma reestruturação empresarial. Contratos de menor valor, mas em grande quantidade, também podem somar um peso significativo no fim do mês.
Esse tipo de custo tem a vantagem de oferecer efeito contínuo: uma economia obtida em um contrato se repete a cada mês e não depende de mudança de comportamento das áreas. Por serem recorrentes, os contratos também são previsíveis, o que facilita medir o efeito de cada negociação.
Mapeamento e priorização dos contratos
O primeiro passo é montar um inventário com todos os contratos recorrentes, indicando valor mensal, prazo de vigência, data de renovação, condições de reajuste, regras de saída e responsável interno. Sem esse levantamento, a empresa corre o risco de renegociar contratos pequenos e deixar de lado os que mais pesam no orçamento. Um bom inventário também registra a data limite para comunicar a intenção de não renovar, para que prazos não sejam perdidos.
Sob a perspectiva de Valdoir Slapak, a priorização deve combinar valor, flexibilidade e criticidade para a operação. Em seguida, Valdoir Slapak considera que os contratos de maior valor e de menor criticidade devem entrar na frente da fila de renegociação, enquanto os essenciais são revistos com mais cautela, para não afetar a entrega. Esse método dá previsibilidade ao processo e evita a renegociação desordenada.

Esse critério evita decisões baseadas apenas em percepção e permite que a gestão explique, para sócios e equipes, por que determinados contratos foram escolhidos para revisão. A priorização ainda permite concentrar o esforço da equipe nas negociações que trazem o maior retorno.
Como renegociar aluguéis e serviços?
Na renegociação, a empresa deve chegar com informação e com alternativas. Dados sobre o uso do espaço ou do serviço, a comparação com preços de mercado, o histórico de pagamentos e propostas de ajuste de prazo ou de escopo fortalecem a conversa. Em aluguéis, as alternativas podem incluir redução de área, revisão de reajustes ou mudança nas condições de pagamento; em serviços, a revisão de escopo e a troca de fornecedor. Chegar à mesa com números é mais eficaz do que pedir redução de forma genérica.
Valdoir Slapak frisa que a renegociação funciona melhor quando a empresa apresenta um plano claro e demonstra que pretende manter o relacionamento. Da mesma forma, a transparência sobre a situação financeira, na medida adequada, ajuda o fornecedor a compreender a proposta e a avaliar o benefício de manter o contrato em condições ajustadas. A proposta ganha força quando indica o que a empresa está disposta a oferecer em troca, como prazo maior de contrato ou pagamento mais previsível.
Todo acordo deve ser formalizado por escrito, com prazos, valores e condições registrados, e comunicado às áreas envolvidas, para que a economia prevista seja monitorada nos meses seguintes. Se o contrato envolver garantias ou condições especiais, elas devem ser revisadas junto com o valor mensal.
Como evitar que os custos recorrentes voltem a crescer?
Depois da revisão, é preciso criar mecanismos para evitar que novos contratos recorrentes sejam assumidos sem avaliação. Uma regra simples é exigir aprovação prévia, com justificativa de necessidade, comparação de propostas e análise do efeito no caixa dos próximos meses. Essa etapa é decisiva, porque contratos assumidos durante a crise podem recriar o problema que a revisão buscou resolver.
Como destaca Valdoir Slapak, o controle financeiro dos contratos recorrentes depende de um calendário de vencimentos e de revisões periódicas, que permita renegociar com antecedência em vez de aceitar renovações automáticas. Por esse motivo, o inventário de contratos deve ser atualizado regularmente e fazer parte da rotina de gestão. A revisão regular também dá visibilidade a oportunidades de renegociação em bloco.
Revisar aluguéis e serviços recorrentes é uma etapa prática do turnaround: mapear os contratos, priorizar os de maior efeito, renegociar com informação e criar regras para novos compromissos. Esse conjunto reduz custos fixos, melhora a eficiência operacional e dá à reestruturação empresarial uma base mais sustentável para a recuperação.
