Medicamentos sem registro ou de procedência irregular circulam por redes sociais, aplicativos e marketplaces, enquanto autoridades reforçam fiscalização e alertam para riscos à saúde
A comercialização irregular de medicamentos conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras” tornou-se um dos desafios recentes para a fiscalização sanitária e aduaneira no Brasil. Produtos que entram clandestinamente pelas fronteiras podem percorrer uma cadeia de distribuição que termina em redes sociais, plataformas digitais e outros canais de venda na internet. A preocupação não envolve apenas contrabando e perda de arrecadação: medicamentos sem registro ou cuja origem e armazenamento não podem ser comprovados representam também um problema de saúde pública. (Folha de S.Paulo)
O crescimento da procura por tratamentos à base de substâncias como semaglutida e tirzepatida aumentou a atenção sobre esse mercado paralelo. Auditores ouvidos pela imprensa apontam as canetas irregulares entre os produtos que atualmente desafiam a fiscalização nas fronteiras brasileiras. Parte dessas mercadorias chega ao consumidor depois de atravessar diferentes intermediários, dificultando a identificação de sua procedência e das condições em que foram transportadas. (Folha de S.Paulo)
Internet amplia alcance do mercado clandestino
A internet acrescentou uma nova dimensão ao problema. Produtos contrabandeados que anteriormente dependiam principalmente de pontos físicos de comércio agora podem chegar ao consumidor por meio de canais digitais. Marketplaces e outras plataformas ampliam o alcance das ofertas e, ao mesmo tempo, podem tornar mais difícil para o comprador determinar se o medicamento anunciado possui registro sanitário e procedência regular. (Folha de S.Paulo)
No caso das canetas, essa falta de rastreabilidade é particularmente preocupante porque medicamentos injetáveis precisam obedecer a padrões de fabricação, conservação e transporte. Quando o produto entra clandestinamente no país, não existe garantia de que essas condições tenham sido respeitadas. A fiscalização precisa, portanto, atuar tanto nas fronteiras quanto nas etapas posteriores da cadeia de distribuição. (Folha de S.Paulo)
Contrabando pelas fronteiras preocupa fiscalização
O Brasil possui milhares de quilômetros de fronteiras terrestres, o que torna a repressão ao contrabando uma operação complexa. Segundo representantes da fiscalização, rotas terrestres envolvendo países vizinhos continuam importantes para a entrada de produtos irregulares. Receita Federal, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal estão entre os órgãos envolvidos no combate a essas redes. (Folha de S.Paulo)
Outro obstáculo apontado é a disponibilidade de pessoal para fiscalizar uma área territorial tão extensa. Nos portos e aeroportos, compartilhamento de informações e inteligência ajudam na identificação de cargas suspeitas; nas rodovias e regiões de fronteira seca, operações policiais podem interceptar mercadorias antes que alcancem grandes centros de distribuição. (Folha de S.Paulo)
Mercado regular também passa por expansão
Ao mesmo tempo em que autoridades tentam conter produtos clandestinos, o mercado formal brasileiro de medicamentos para obesidade e diabetes está passando por uma importante transformação. Nesta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, a Anvisa aprovou o segundo medicamento genérico de semaglutida do Brasil em apenas uma semana, desta vez produzido pela Germed. O primeiro genérico havia sido aprovado para a EMS em 17 de agosto. (Folha de S.Paulo)
O novo genérico terá quatro apresentações injetáveis de semaglutida. Pela legislação brasileira, medicamentos genéricos precisam demonstrar equivalência farmacêutica em relação ao produto de referência e devem chegar ao mercado com preço pelo menos 35% inferior ao medicamento de referência. Os produtos recém-aprovados ainda dependem das etapas relacionadas à definição de preço antes de chegarem efetivamente às farmácias. (Folha de S.Paulo)
Uso sem acompanhamento também preocupa especialistas
A preocupação não está limitada aos produtos clandestinos. Nesta mesma segunda-feira (24), a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou uma nota técnica alertando médicos sobre o uso de medicamentos desse tipo por crianças e adolescentes. A entidade ressalta que substâncias como liraglutida, semaglutida e tirzepatida possuem indicações e restrições específicas e não devem ser utilizadas indiscriminadamente por razões meramente estéticas. (Folha de S.Paulo)
A orientação reforça que tratamentos desse tipo precisam considerar idade, condição clínica, histórico do paciente e acompanhamento profissional. Entre os riscos associados ao uso inadequado estão efeitos adversos que podem exigir atenção médica. A combinação entre forte procura, divulgação nas redes sociais e disponibilidade de produtos clandestinos torna a orientação profissional ainda mais importante. (Folha de S.Paulo)
Fiscalização e oferta regular são caminhos para combater mercado ilegal
O avanço de medicamentos devidamente registrados pode ajudar a modificar esse cenário. A ampliação da concorrência tende a aumentar a oferta de tratamentos regulamentados e potencialmente reduzir preços, diminuindo parte do incentivo econômico para consumidores recorrerem ao mercado clandestino.
Mesmo assim, o combate às vendas ilegais continuará dependendo da fiscalização das fronteiras e da cadeia de distribuição digital. Para o consumidor, a principal diferença está na rastreabilidade: medicamentos registrados passam por avaliação sanitária e seguem regras de fabricação, armazenamento e comercialização, enquanto produtos clandestinos podem não oferecer qualquer garantia sobre composição, procedência ou conservação.
