Categoria ainda não tem prazo definido para retorno ao trabalho, e impasse sobre plano de saúde segue como principal obstáculo para um acordo
A greve nacional dos Correios completou nesta terça-feira o 12º dia sem sinal de solução definitiva, depois que o Tribunal Superior do Trabalho (TST) suspendeu, na última segunda-feira, o julgamento do dissídio coletivo que poderia declarar a paralisação abusiva. A categoria interrompeu as atividades em 10 de setembro, após a empresa e os sindicatos não chegarem a um consenso sobre o novo acordo coletivo de trabalho para o período 2026/2027.
O presidente do TST, ministro Vieira de Mello Filho, justificou o adiamento pela necessidade de garantir o devido processo legal. Segundo ele, a direção dos Correios apresentou novos documentos à Corte na sexta-feira (18) à noite e no sábado, pedindo o reconhecimento da abusividade da greve, mas os sindicatos que representam os trabalhadores não tiveram tempo hábil para se manifestar sobre esse material. Diante disso, os ministros acataram uma questão de ordem para conceder 48 horas de prazo às entidades sindicais antes de retomar a análise.
A nova sessão de julgamento ficou marcada para a próxima quinta-feira (24), às 15h30. Até lá, os Correios seguem operando sob uma determinação anterior do TST que obriga a manutenção de 80% do efetivo em atividade, decisão tomada com base no entendimento de que o serviço postal é essencial e de que a paralisação total poderia afetar até mesmo a logística eleitoral do país, em um ano de eleições gerais.
O que travou o acordo entre Correios e trabalhadores
O impasse entre a estatal e os sindicatos não está relacionado a reajuste salarial. Nesse ponto, aliás, já existe convergência: as duas partes aceitam um aumento de 4,35%, retroativo a 1º de agosto. O problema central é outro e envolve o plano de saúde oferecido aos funcionários, aposentados e dependentes.
Atualmente, os Correios atuam como mantenedores do plano, o que significa que a estatal assume a responsabilidade principal pelo custeio e também corre boa parte do risco atuarial da operação. A proposta da empresa é abrir mão dessa condição de mantenedora, mantendo apenas um subsídio ao empregado, mas sem carregar sozinha o risco financeiro do plano, hoje estimado em quase R$ 600 milhões em provisões. Do lado dos trabalhadores, a reivindicação é justamente a manutenção do modelo vigente, sem alterações na forma como o benefício é hoje sustentado pela empresa.
Para justificar a proposta de mudança, a direção da estatal argumenta que está em meio a um plano de reestruturação motivado por dificuldades financeiras. Segundo a empresa, cerca de 89% de toda a receita arrecadada é direcionada ao pagamento de salários e benefícios, um percentual que, na avaliação dos Correios, inviabiliza a recuperação do equilíbrio econômico do negócio no médio prazo.
Impacto da paralisação e reação política
A greve tem gerado reflexos diretos na rotina de quem depende dos serviços postais, especialmente no envio e recebimento de encomendas e correspondências com prazo determinado. Embora o percentual mínimo de funcionários em atividade tenha sido preservado por determinação judicial, o volume de entregas segue abaixo do normal em diversas regiões do país, e a estatal informou que ativou um plano de continuidade de negócios para tentar minimizar os efeitos da paralisação sobre o público.
O tema também ganhou repercussão política nas últimas semanas, em meio ao debate sobre a situação fiscal da estatal. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já se manifestou publicamente sobre o rombo financeiro dos Correios, reconhecendo as dificuldades da empresa, mas descartando qualquer movimento de privatização como saída para a crise. Enquanto isso, o assunto passou a circular de forma intensa em grupos de WhatsApp e Telegram, com narrativas que atribuem o prejuízo da estatal diretamente à atual gestão federal.
Até a nova sessão de quinta-feira, a expectativa dos sindicatos que representam a categoria é de que o TST mantenha o modelo atual do plano de saúde, argumento que tem sido reforçado pelas entidades como a principal linha de defesa dos trabalhadores diante da Corte. Já a empresa insiste que o tribunal declare a paralisação abusiva, o que obrigaria o retorno imediato de todo o efetivo às atividades normais.
Fontes consultadas:
- https://www.poder360.com.br/poder-justica/tst-adia-para-5a-feira-julgamento-sobre-greve-dos-correios/
- https://ndmais.com.br/justica/tst-julga-greve-dos-correios-plano-de-saude/
- https://www.tribunadosertao.com.br/financas/2026/09/21/982882-tst-suspende-julgamento-e-correios-seguem-em-greve
- https://imirante.com/noticias/brasil/2026/09/21/tst-suspende-julgamento-de-dissidio-da-greve-dos-correios
