O IBGC divulgou um guia sobre inteligência artificial destinado especificamente aos conselheiros de administração e anunciou novas formações sobre riscos, responsabilidades e criação de valor a partir de dados. Para Victor Maciel, advogado tributarista e fundador do escritório de advocacia Victor Maciel Advogados, este movimento ajuda a demonstrar uma mudança que já afeta a governança corporativa: os dados e a inteligência artificial deixaram de ser assuntos restritos às áreas técnicas e passaram a interferir diretamente nas decisões estratégicas.
Contudo, a questão não reside na conversão de conselheiros em especialistas em algoritmos. A questão fundamental é determinar até que ponto uma informação pode fundamentar uma decisão, identificando os riscos subjacentes e as perguntas que devem ser feitas antes de confiar numa recomendação automatizada. A capacidade de questionamento é, por conseguinte, uma competência que se torna cada vez mais relevante no contexto da supervisão empresarial.
Por que entender a origem dos dados é crucial para uma decisão assertiva?
Uma informação pode parecer objetiva e, ainda assim, carregar limitações importantes. Origem dos dados, critérios utilizados, período analisado e qualidade da base influenciam diretamente o resultado apresentado. Por isso, um conselho que apenas recebe indicadores sem compreender como foram construídos corre o risco de transformar uma aparente evidência em fundamento para uma decisão equivocada.
A questão ganha complexidade quando sistemas de inteligência artificial passam a acessar diferentes fontes, interpretar informações e executar tarefas com menor intervenção humana. Nesse cenário, não basta perguntar qual foi o resultado. Também é necessário entender quais dados alimentaram o sistema, quais parâmetros foram utilizados e quais mecanismos existem para revisar ou interromper uma decisão quando necessário.
Essa mudança altera o papel da supervisão, explica Victor Maciel. Em vez de acompanhar apenas números finais, o conselho precisa desenvolver repertório para identificar premissas, inconsistências e riscos que podem estar escondidos atrás de uma resposta aparentemente precisa.

Como definir responsabilidades claras pode fortalecer a governança no uso de tecnologia?
Na prática, conselhos mais preparados tendem a incorporar alguns critérios à própria rotina de governança. Entre eles estão a definição clara de responsabilidades, a identificação dos riscos associados ao uso de dados e inteligência artificial, a existência de políticas internas e a delimitação de quem pode aprovar, revisar ou contestar decisões apoiadas por sistemas automatizados.
Outro ponto é a rastreabilidade. Quando uma tecnologia influencia uma decisão relevante, a empresa precisa conseguir reconstruir, ao menos em nível suficiente, quais informações foram utilizadas, quem supervisionou o processo e quais controles estavam disponíveis. Isso permite, segundo Victor Maciel, que a tecnologia seja incorporada à governança sem transformar sua complexidade em uma justificativa para a ausência de responsabilidade.
Também ganha importância a capacitação dos próprios conselheiros. Não se trata de aprender a programar, mas de compreender conceitos fundamentais para avaliar riscos, questionar premissas e dialogar com executivos e especialistas técnicos de maneira mais qualificada.
O que os conselhos precisam considerar para uma governança mais eficaz diante da inteligência artificial?
A discussão sobre dados, portanto, não desloca o conselho para uma função operacional. Ao contrário, reforça seu papel de supervisão. Como destaca Victor Maciel, a qualidade da decisão depende também da capacidade de examinar criticamente as informações que chegam à mesa antes de transformá-las em orientação estratégica.
Essa perspectiva ajuda a separar duas competências diferentes. Conhecer a tecnologia pode ser útil, mas saber questionar sua aplicação é indispensável. Um conselho não precisa construir um modelo de inteligência artificial, mas precisa ser capaz de perguntar por que ele foi adotado, quais riscos envolve e quais mecanismos existem para corrigir seus efeitos.
No contexto corporativo contemporâneo, governar com dados significa, sobretudo, não confundir volume de informação com qualidade de decisão. Assim, é imprescindível fortalecer essa capacidade de questionamento, pois é parte integrante de uma governança que acompanha a transformação tecnológica sem abrir mão de responsabilidade, critérios e julgamento humano.
